Conforme vamos crescendo, ficando mais velhos, certos sonhos e alguns ídolos da época de infância vão ficando pra trás. Seja porque a vida nos mostrou que nossa visão era romantizada demais ou porque ficamos maduros demais pra continuar seguindo certas pessoas, (eu já defendi os backstreet boys, por exemplo), em algum momento a gente percebe que mudou, e que não dá mais pra gostar do que gostávamos, pra perseguir os sonhos que a gente achava que eram os melhores.
Na maioria das vezes é muito bacana sim, crescer e perceber que tem algo ainda mais verdadeiro, mais nosso, mais real pra admirar e perseguir. Ainda bem que as boy bands não são mais meu ideal de boa música, e que eu descobri os Secos e Molhados, e o Queen e tantos outros.
Mas tem certos momentos em que é difícil perceber que sua paixão da infância, que te acompanhou na adolescência e perdura até hoje, está sendo constantemente massacrada, que por mais que você não queira, sua admiração, a fé que você colocava naquilo está se esvaindo e corre o risco de ir embora de vez.
Eu sempre adorei a televisão desde que eu me entendo por gente. Adorava assistir: ficava triste quando os Muppet Babies iam embora, chorava com o Cirilo em Carrossel; Adorava reproduzir: escrevia diálogos bregas inspirados nos melodramas e fazia meu pai fazer as falas do Ken, enquanto eu interpretava com a Barbie. Na primeira série eu me desenhei com um microfone na mão, num exercício sobre a profissão que queríamos ter.
Fui crescendo e continuei adorando perceber como aquilo mexia com as pessoas. As roupas que viravam moda, os bordões...eu só pensava que queria trabalhar com aquele caixote que mexia com a vida de todo mundo. Mais tarde comecei a fazer uma análise crítica da televisão, passando a notar que nem tudo, ou melhor, nada está lá por acaso, existem milhares de interesses por trás de cada palavra, de cada figurino, de cada atração.
E mesmo percebendo tudo isso, eu nunca fui contra a TV, nunca preguei o fim de todas as atrações porque, assim como Dominique Wolton, eu acredito que a televisão é espelho, é sintoma e não causa de uma sociedade que está em crise. Não adianta apenas propor programas educativos, se o povo não ganhar educação de qualidade, não adianta propor o fim do machismo nas atrações, sem combater o machismo. Sem uma sociedade melhor, totalmente reestruturada, não temos TV melhor.
Nessa semana, com o caso do estupro no BBB, minha paixão por televisão sofreu mais um golpe. A maior emissora do país se calou, um de seus mais famosos apresentadores foi conivente, enfim, fizeram tudo errado, jogaram sujo. As outras emissoras, principalmente a Record, perderam uma oportunidade de ouro pra levantarem um debate nacional sobre abusos contra as mulheres, os efeitos do álcool e etc, porque não quiseram perder a oportunidade de bater na concorrente Globo. Falaram muito da emissora e quase nada do caso.
O irônico é que justamente hoje, arrumando minhas coisas velhas, achei um diário que fiz quando tinha 12 anos e estava na quinta série. Escrevi: "minha professora de geografia disse hoje que as mulheres recebem muito menos que os homens e quase não ocupam cargos importantes em empresas grandes. Achei isso um absurdo, credo!"
Quando entrei na Faculdade de Comunicação, muitos anos depois disso e ainda pensando "credo!", sobre questões como essa, eu acreditava que não só a TV mais os meios de comunicação seriam grandes aliados. Fui gradativamente percebendo que não, a maioria deles luta sim, pra que tudo continue como está.
Enfim, continuo admirando o poder da televisão, de falar pra muitas pessoas, de persuadir muita gente, mas agora sinto um gosto muito amargo, de que esse imenso potencial está trabalhando pra preservar tudo que me incomoda, tudo que me tira do sério, tudo que me machuca diariamente.
Pensamentos da Analu
Não,não é só pra desabafar.Não sei ao certo porque escrevo e nem quero descobrir.Utilidade é uma coisa muito chata.
17 de janeiro de 2012
7 de novembro de 2011
Os jovens e os leprosos.

"Uma falta de liberdade confortável, suave, razoável e democrática prevalece na civilização industrial desenvolvida, um testemunho do progresso técnico". Herbert Marcuse, 1964.
Os jovens de hoje em dia não querem saber de liberdade. Não querem saber do é proibido proibir, de revolução sexual, não querem sair por aí com a possibilidade de viver o que quiserem, da maneira que quiserem. Os jovens de hoje em dia, principalmente os universitários, acreditam que regras existem para serem seguidas. E, claro, com um adendo: caso sejam quebradas, que o silêncio seja mantido, que ninguém suspeite, afinal de contas, ser apontado como alguém que não cumpre as regras deixou de ser rebeldia com pitada de heroísmo há muito tempo. Hoje isso é feio, já foi a época.
O caso da USP, por exemplo: muita gente, mas muita gente mesmo, que estuda comigo, está do lado dos policiais e do governo. "Os estudantes são um bando de desocupados, exagerados, merecem apanhar, isso sim".
Os estudantes que ocuparam a USP não estão pedindo que as drogas sejam liberadas na Universidade, querem denunciar e querem o fim da truculência com que os alunos são tratados pelos policiais no campus. Mas os jovens de hoje, que não querem a liberdade, já se sentem ameaçados por esse burburinho e tomam logo partido do pessoal de bem. "Não confie em ninguém com mais de trinta?" Hoje em dia isso não cola mais. O medo da liberdade real é tão grande, que os jovens gostam de acreditar e propagandear por aí, que já somo livres sim, e que aqueles que dizem o contrário são os tais radicais. E radicalismo, hoje, é como lepra.
O machismo, por exemplo, é visto como algo que já foi superado, ainda mais entre a "elite cultural" desse país. Qualquer piada tem que ser aceita, qualquer comentário tem que ser tido como natural, caso contrário, você ganha a alcunha de leproso. Enquanto isso, as meninas aceitam e acham o máximo serem tratadas como troféus, dizem em alto e bom som que as mulheres já alcançaram seu lugar ao sol, e que o feminismo é coisa de lésbicas encrenqueiras ou de feias mal amadas. E o que é ser amada hoje em dia? Para a maioria das meninas que vejo na universidade, hoje, ser amada é ter um namorado. Sim, um namorado, como manda o figurino. Esqueça o que as loucas de 68 pregavam. Essas meninas de hoje não transam no primeiro encontro, não tem o menor interesse em poder transar quando der na telha. Elas não gostam da liberdade. Vale, no máximo, fazer uma loucura nas férias, numa cidade distante, com um cara distante, que nunca poderá ser um possível namorado. Aí sim até vai transar logo de cara, ou fazer sexo oral no meio da festa. Essas meninas não querem se perguntar o porquê de nosso comportamento ser ditado, o porquê de serem eles que escolhem quem presta ou não, ou, ainda, de o critério utilizado ser tão somente a quantidade de caras diferentes com quem fizemos sexo. É mais fácil e prático, palavras valiosas hoje em dia, se comportar bem durante o ano e deixar para viver certos momentos só na viagem com as amigas. Lutar pelas coisas, hoje em dia, dá trabalho demais.
E é aí que fica fácil para as coisas continuarem do jeito que estão: com os jovens do lado delas.
As vezes custo a pegar no sono, porque fico pensando o que a gente conseguiria se o pessoal das universidades todas perdesse o medo da liberdade. Porque se a gente cismar, a liberdade real acontece, para todo mundo. E é claro que não acredito que aí sim, será tudo lindo, seus problemas acabaram e por aí vai. Ser livre é difícil, é bem mais difícil do que viver com essa liberdade medíocre que conhecemos. Imagina, se ver sem limites, sem pudores, sem velhos preconceitos e regrinhas que, no dia a dia, são ótimas muletas?! Conviver com as pessoas, e com os sentimentos delas, é das cosias mais complicadas e Deus sabe como os bons modos e hipocrisia social nos ajudam.
Por vezes seria o caos, por vezes seria triste, mas eu, enquanto leprosa convicta acredito, piamente, que seria delicioso.
22 de setembro de 2011

Uma vez escrevi aqui sobre o maior sonho que eu tinha quando criança, que era ir embora com um circo, para ficar trabalhando por lá, conhecendo cidades novas, gente nova e não ter um endereço fixo. Mas lembro que, nessa mesma época, quando eu ia para a casa de uma tia passar as férias, eu morria de saudades de casa, enquanto minha prima ficava feliz o dia todo e nem ligava.
Lembro de um momento, quando a gente estava no auge de um dia bonito de férias: minha tia levou a gente ao cinema, depois fomos tomar sorvete e passear pelas ruas de Juiz de Fora que, para mim, era a maior cidade que poderia existir. No meio daquilo tudo, eu comecei a me lembrar do meu irmão, tão novinho, que tinha ficado em Santos Dumont, do meu quarto, e fiquei com uma vontade incontrolável de chorar. Respirei fundo, olhei em volta, e voltei a ser feliz. Eu não era daquelas crianças que pediam para voltar para a casa no meio da madrugada, sempre viajei sem meu pais, e sempre foi assim: muita vontade de ir para outro lugar, de ver caras novas, e um aperto no coração que ia crescendo, até ficar ruim e ficar tudo bem de novo.
Não mudou nada.
Nunca deixei de ir para a casa da minha tia, assim como não vou deixar de tentar o intercâmbio agora. Toda vez que imagino minha vida fora, penso: "mais vou ficar tanto tempo longe desse pessoal? Que horror!" Finjo que não me escuto. Ao mesmo tempo, eu penso que não quero ter obrigação com lugar algum, que quero conhecer tudo que puder, agora, já. Como pode ter a mesma intensidade, a vontade de correr o mundo, e a de ficar quieta, perto de quem eu gosto?
Desde sempre eu quero ver de perto tudo que escuto falar, quero conhecer pessoas interessantes, e desde essa época, as vezes choro de saudades, penso em não ir, mas, mesmo que na última hora, mesmo levando comigo mais do que deveria, eu sempre vou.
(esse assunto não vai sair daqui tão cedo).
5 de junho de 2011
Todo mundo tem o direito de ser brega.

Já marquei na agenda. Escrevi com a caneta que deixa minha letra bonita, escolhi cuidadosamente o dia e marquei o compromisso.
Vou acordar cedo, tomar um banho demorado e deixar o cabelo bem bonito. Talvez use aquela flor que sempre achei linda e nunca tive coragem de usar. Vou passar batom, rímel, esmalte vermelho. Colocar um vestido, as sandálias que gosto e aqueles brincos que nunca me lembro de pendurar. Vou usar pulseira, anel, não vou usar relógio. Nesse dia, não quero contar o tempo. Vou colocar uma música que gosto e vou dançar sozinha, vou dançar sem vergonha de não ter rítmo, de não ter par, vou girar com os braços abertos feito moça de novela mexicana. Vou colocar uma música que evito ouvir e vou pensar justamente no que eu odeio pensar quando escuto essa música. Vou passar um perfume novo, vou comprar umas balinhas do papel verde que eu tanto gosto e vou ler uns sonetos do Neruda. Vou assistir Noivo neurótico, noiva nervosa, Moulin rouge e O casamento do meu melhor amigo. Vou ligar para uma amiga e pedir que me deseje sorte. Não vou poder desistir. Vou comer chocolate, jogar fora papéis com velhas promessas, fotos de antigas paixões e meus medos - todos eles. Vou andar devagar, vou reparar nos detalhes, vou estar sem relógio, isso é importante frisar. Não vou me comparar com as meninas que vejo, não vou condenar o que penso, não vou me calar. Não vou falar como nos filmes, vou me enrolar com as palavras, vou me sentir ridícula e vou te contar que gosto de você, sem mais.
1 de maio de 2011
Estava tranquila, observando as roupas no varal. Fileiras imensas de roupas coloridas, imóveis, intocáveis. Os pés estavam firmes sobre as sandálias, o cabelo estava preso.
Sem mais nem menos começou a ventania, as nuvens começaram a juntar, o céu ficou cinza e ela soube.
Tudo foi tomado pelo vento, que começou tímido e cresceu, soprando pra longe tudo que estava preso alí. A água caiu violenta, com pressa de encontrar a terra. Na chuva, as roupas dançavam, correndo para longe. Os papéis que ela segurava voaram, apontando o caminho.
Os cabelos desprenderam-se da fita, que também foi com o vento, e ela não teve como negar. O coração, aos pulos, tinha medo de sair do peito, tão forte que batia.
Tirou as sandálias, pisou na terra para que tudo aquilo pudesse, enfim, entranhar-se nela. Sentia o gosto da chuva com aquela terra fofa que sujava seus pés e que ela nunca havia sentido. Olhou para o céu e sorriu vendo a água cair, vendo o cinza que era, na verdade, muito mais bonito que o azul.
Sorriu ao ver o varal, as sandálias jogadas para longe, as roupas caídas lá na frente, também sujas de terra. Tudo era mais bonito naquela desordem. O vento daquele dia, que chegou manso, carregou o medo da chuva para longe.
De um jeito só dela, de um jeito único, ela sempre soube.
Sem mais nem menos começou a ventania, as nuvens começaram a juntar, o céu ficou cinza e ela soube.
Tudo foi tomado pelo vento, que começou tímido e cresceu, soprando pra longe tudo que estava preso alí. A água caiu violenta, com pressa de encontrar a terra. Na chuva, as roupas dançavam, correndo para longe. Os papéis que ela segurava voaram, apontando o caminho.
Os cabelos desprenderam-se da fita, que também foi com o vento, e ela não teve como negar. O coração, aos pulos, tinha medo de sair do peito, tão forte que batia.
Tirou as sandálias, pisou na terra para que tudo aquilo pudesse, enfim, entranhar-se nela. Sentia o gosto da chuva com aquela terra fofa que sujava seus pés e que ela nunca havia sentido. Olhou para o céu e sorriu vendo a água cair, vendo o cinza que era, na verdade, muito mais bonito que o azul.
Sorriu ao ver o varal, as sandálias jogadas para longe, as roupas caídas lá na frente, também sujas de terra. Tudo era mais bonito naquela desordem. O vento daquele dia, que chegou manso, carregou o medo da chuva para longe.
De um jeito só dela, de um jeito único, ela sempre soube.
13 de abril de 2011
Para Ana Lúcia

Eu te engano descaradamente. Minto para você com a maior cara de pau todos os dias.
Se tenta argumentar te chamo de vulnerável, conservadora, ridícula. Me imponho e, enfim,finjo que não é comigo.
Te reprimo, não aceito que você considere possibilidades que descartei sem nem te consultar.
Ironia daquelas...eu que gosto tanto da liberdade, que acredito tanto no fim de todas as proibições, controlo o que se passa contigo a partir de padrões rígidos e inflexíveis.E vou senhora absoluta, dona da mentira que conto para você diariamente. Basta impor, repetir várias vezes que vira verdade...
Era assim, era fácil e era confortável mentir para você até hoje.
Mas (eu devia saber!) sempre chega o momento em que tudo começa a ruir, de dentro para fora.
Você tá me cobrando respostas, tá esfregando na minha cara que essa farsa nos impediu de viver tantas coisas e que hoje você não sabe lidar com o que sente porque eu, e minha mentira egoísta, te proibimos de aprender!
Fiz você negar o que era uma clara verdade, fiz renúncias, sempre passei por cima daquilo que você queria, mentindo que estava tudo muito bem.
Pois é, você me convenceu, não tá nada bem por aqui.
Me perco no que eu acredito, nas pessoas que admiro, nas histórias que me encantam e quando olho para você quero enxergar tudo isso.
Para fazer esse papel, faço você sacrificar muitas coisas, calo seus pensamentos e nem conheço o que você realmente pensa sobre a vida.
Mas acontece que eu não sei lidar com isso e nem sei se quero aprender! Não quero abrir mão desse poder sobre você que é, essencialmente, aquilo que eu sou.
Será que alguém desconfia do quanto me custa esse controle? Será que me aceitariam se deixasse você ter mais voz?
De qualquer forma, foi bom você ter se rebelado. É claro que estou longe de acatar suas vontades, mas quero tentar pelo menos um meio termo.
Foi preciso ficar triste e não ter mais nada para culpar, não ter nenhuma desculpa, para encarar o que andava escondendo.
Sejamos, então, vulneráveis, conservadoras e ridículas. Sejamos o que há de pior. Só não quero mais que sejamos uma mentira.
27 de fevereiro de 2011
Essa é toda a verdade.
Quero contar a história de um garoto que era três coisas ao mesmo tempo, além de ser só um garoto, claro.
Muita gente duvida dessa história, pensa que é lenda. Mas estou contando essa história, e isso é toda a verdade.
Ele era literatura, cinema e música. Além de ter que ser também só um garoto, claro.
E para assumir seu lado garoto ele devia aprender a domar o cinema, a literatura e a música, que também viviam nele, mas como eram temperamentais!
Era impossível para ele conviver com os outros garotos, porque ao tentar conversar, escapavam versos da sua boca, ou ele encenava cenas clássicas de seus filmes prediletos, tudo isso ao mesmo tempo tempo, tudo isso vindo de dentro dele.
E era uma confusão porque o mundo não conseguia enteder aquilo tudo e ele também não conseguia, porque além de ser cinema, literatura e música, ele também era só um garoto, claro.
Ele vivia triste porque pensava: do que adianta ter tanto dentro de mim, se isso me domina e não me deixa ser só um garoto?
Ninguém entendia seu terrível dilema, sempre preso entre a subjetividade que o dominava e o desejo de ser só um garoto, assim, como os outros.
Decidiu, por fim, que se esconderia do mundo. Já que não podiam entende-lo, ele viveria do jeito dele, tendo como companhia somente o cinema, a literatura e a música.
Mas é claro que essa história não termina assim, porque se ele tivesse continuado sozinho, eu não o teria conhecido e não estaria aqui, agora, contando isso tudo.
Por fim, ele achou a solidão muito chata. E o cinema, a literatura e a música também se revoltaram com aquele exílio. Queriam ser divididas, deveriam ser divididas!
"Isso", pensou o garoto, "se eu dividir isso que me domina com outras pessoas, posso ser só um garoto, claro!"
E assim, ele saiu de seu esconderijo e procurou quem quisesse sua música, seus poemas, seu cinema.
Eu sempre quis mais cinema na minha vida, e foi isso ele que ele me deu. Outro garoto, que amava música e não conseguia viver sem, ganhou suas trilhas sonoras e a literatura, bem, a literatura ele resolveu dividir com mais gente.
Hoje, todo mundo pode ler o que ele escreve, que transborda de dentro dele, não sem um pouquinho de saudade do cinema e da música, que por vezes vão visitá-lo.
Muita gente duvida dessa história, pensa que é lenda. Mas estou contando essa história, e isso é toda a verdade.
Ele era literatura, cinema e música. Além de ter que ser também só um garoto, claro.
E para assumir seu lado garoto ele devia aprender a domar o cinema, a literatura e a música, que também viviam nele, mas como eram temperamentais!
Era impossível para ele conviver com os outros garotos, porque ao tentar conversar, escapavam versos da sua boca, ou ele encenava cenas clássicas de seus filmes prediletos, tudo isso ao mesmo tempo tempo, tudo isso vindo de dentro dele.
E era uma confusão porque o mundo não conseguia enteder aquilo tudo e ele também não conseguia, porque além de ser cinema, literatura e música, ele também era só um garoto, claro.
Ele vivia triste porque pensava: do que adianta ter tanto dentro de mim, se isso me domina e não me deixa ser só um garoto?
Ninguém entendia seu terrível dilema, sempre preso entre a subjetividade que o dominava e o desejo de ser só um garoto, assim, como os outros.
Decidiu, por fim, que se esconderia do mundo. Já que não podiam entende-lo, ele viveria do jeito dele, tendo como companhia somente o cinema, a literatura e a música.
Mas é claro que essa história não termina assim, porque se ele tivesse continuado sozinho, eu não o teria conhecido e não estaria aqui, agora, contando isso tudo.
Por fim, ele achou a solidão muito chata. E o cinema, a literatura e a música também se revoltaram com aquele exílio. Queriam ser divididas, deveriam ser divididas!
"Isso", pensou o garoto, "se eu dividir isso que me domina com outras pessoas, posso ser só um garoto, claro!"
E assim, ele saiu de seu esconderijo e procurou quem quisesse sua música, seus poemas, seu cinema.
Eu sempre quis mais cinema na minha vida, e foi isso ele que ele me deu. Outro garoto, que amava música e não conseguia viver sem, ganhou suas trilhas sonoras e a literatura, bem, a literatura ele resolveu dividir com mais gente.
Hoje, todo mundo pode ler o que ele escreve, que transborda de dentro dele, não sem um pouquinho de saudade do cinema e da música, que por vezes vão visitá-lo.
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